segunda-feira, 14 de setembro de 2015

segunda-feira, 10 de março de 2014

Lua Crescente



Cresça querida lua, deixa sua luz cobrir sua face, derrama sua pálida luz até que preencha seu próprio corpo redondo. Que seu corpo fique evidente na escuridão do céu noturno. Deixa, lua amada, que sua luz cresça para além do seu corpo astronômico. Que o céu inteiro seja banhado por sua sabedoria cálida. Para além do céu, querida, que a Terra sugue para si sua crescente luminosidade. Que se banhe inteira no prazer da sua branca paz. Que a Mãe Terra engravide do seu derramamento fluido e constante, e que dela brotem árvores de lua, com frutos brancos e doces. Envie, deliciosa lua, seu crescimento de fase cá para meus cabelos. Que minha cabeça seja inundada, sem pudor, com sua luz fria. Me preencha. Toque meu coração, e nele cresça assim como no céu, assim como na Terra. Me envolva, me tome como se eu fosse uma cratera do seu rosto pedregoso. Me ilumine, amada lua, cresça em meu quadril, enchendo meu útero e desça para os meus pés, penetrando novamente a Terra, inundando todo o vazio silencioso do universo. Do universo em mim, daquele fora de mim. Cresça, lua. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Seja bem vinda, Grande Lua Vermelha!



Um ser que verte sangue, leite e lágrimas ao mesmo tempo só pode ser o superlativo de alguma coisa. Depois de quase 15 meses fui abençoada com a volta da minha menstruação no mesmo dia em que a lua cheia chegou clareando o véu negro da noite de forma imponente. A luz da lua invadiu silenciosa e cálida o frio do firmamento, derramando êxtase no coração daqueles que sabem reverenciá-la. Enquanto isso meu ventre desperta de um descanso profundo e merecido, e acorda pulsante, vibrante, vertendo o sangue de um vermelho vivo, respondendo ao chamado da Mãe.

Antes da gestação, a menstruação era pra mim Morte, a abençoada Ceifadora Sinistra que vinha arar o campo, revolver a terra, destruir o inútil. Era dor, despedida, luto. Agora, quando vi aquele sangue tão esperado destacado em um vermelho vibrante no papel branco, fui invadida de felicidade e só pude me sentir viva. Sentir minha vulva molhada, um pouco dolorida, foi me sentir fêmea novamente.

Então a menstruação também é prazer e vida! E começo a achar agora que ela pode ser qualquer coisa, pode trazer as mais diversas mensagens para o mundo feminino, e deve ser exatamente aquilo que precisamos. Por que é assim, generoso, abrangente, sábio, este feminino.

Meu corpo está pulsando vida, produzindo nutrição pro meu filho, acordando meu ventre, eu só posso me curvar em gratidão e meu coração se transborda em um sentimento de totalidade, amor, sacralidade... Sou risada e lágrimas diante da Lua, a Grande Lua Vermelha.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A responsabilidade de um bebê


Antes de começar a ler este texto, vamos esclarecer uma coisa para evitar dedos em riste e comentários desnecessários. Se falo dessas escolhas como as melhores, foi por que eu estudei, pesquisei e achei que estas eram as melhores escolhas para minha família. Se voc~e achou que outras são melhores, não é meu papel julgar. Falo apenas de mim neste texto. E sim, a cirurgia cesárea pode prejudicar os bebês, pesquise e se informe.


Um bebê que nasceu em um parto natural, foi direto pro colo da mãe, mamou sempre em livre demanda, tem muitas responsabilidades. Este bebê de quem eu falo, dormiu desde pequenino no colo, mamou sempre que quis, é cuidado principalmente pela mãe, e levado pra cima e pra baixo no sling. O pai está sempre presente, está sempre envolto por amor. É tratado com homeopatia e acupuntura quando necessário. Este bebê sempre é atendido quando chora, e nunca foi deixado sozinho para dormir. Este pequeno, não importa a idade que tenha, tem muita responsabilidade, a enorme responsabilidade de ser o melhor bebê da face da terra.
Quando eu me pego com vergonha e desapontada por que o Pedro ainda acorda muito à noite, só dorme com o barulho de chuva no ouvido, não dorme no peito, percebo que na minha mente passa um pensamento “mas este menino nasceu em casa, o que ele quer?!” E olho bem comprido pra aquela criança que nasceu de cesárea, dorme sozinha no quarto, é cuidada pela babá, entre outras coisas, e que é tão feliz, dorme a noite toda e ri o tempo todo...
Eu tento, assim que me pego neste buraco de coruja, lembrar que meu filho é uma pessoa, um bebê, e não me deve nada. Eu fiz o melhor que pude, e continuarei fazendo, e mesmo assim ele não me deverá nada. Não precisa pagar nem com um sorriso, nem dormindo a noite toda, nem sendo um bebê tranquilo, ou uma criança esperta, ou um adulto legal. Não é este o tipo de relação que eu estou construindo com meu filho. Eu faço o que acho melhor, me desdobro, me desboto, me desfaço e me refaço para que isso seja possível. Mas isso não é um favor pra ele. Seja, meu filho. Que eu não te impeça. Amém.





Atropelos



Meu filho é o primeiro da sua geração na minha família. O primeiro neto, sobrinho, e meu primeiro filho. Na minha família isso provocou um efeito, acho que por causa da comoção de ver a família começar a atravessar o tempo. Aconteceu que as pessoas se perderam nos seus papéis. Antes de o Pedro chegar, tínhamos bem definidas certas coisas, como que cada um sabe de sua vida, e que nós, como família, iríamos nos apoiar incondicionalmente. Mesmo que não concordássemos com as escolhas do outro. E agora tenho uma imagem na minha mente de todos correndo de um lado pro outro, sem lugar diante do Pedro. E me atropelando. 
Eu sei exatamente qual o lugar do meu filho nesta família, ele é só um bebê, e o lugar dele é no meu colo. Isso tem um significado importante, o lugar dele é onde eu estava antes, onde eu estou, e depende de mim. Por enquanto, e ainda por muito tempo, o lugar dele é o meu. Se querem alcançá-lo sem me ver, me machucam.
As decisões que eu tomei na minha vida, mesmo que minha família não tenha concordado, ou entendido, mesmo que meus pais tenham achado que não ia dar certo, em todas elas eu recebi apoio, algumas foram bancadas financeiramente pelos meus pais, e bancadas emocionalmente também, não só por meio de palavras, mas de atitudes (comportamento e postura).
E agora, com meu filho nos braços, tomando minhas decisões que não mais dizem respeito apenas à minha vida, sinto que o apoio incondicional não é tão natural como era. E não estou me referindo à apoiar meu discurso, que é realmente muito bonito. Mas apoiar e incentivar minha maternagem.
Que vejam como eu dou banho e visto meu bebê, como eu o carrego e brinco com ele, como eu o cheiro e o desejo, como eu o amo e quero bem. Como eu quero ficar com ele no meu colo e eu quero trocar suas fraldas molhadas. Como ele morde meu queixo e gargalha quando eu beijo sua barriga. Como eu cuido do seu choro e do seu reclamar. Como eu deixo que ele se relacione com outras pessoas nas quais eu confio. Como eu o visto no frio ou no calor. Como eu decido que é hora de pegar no colo ou se eu o deixo reclamar mais um pouquinho. Todas estas coisas são minhas escolhas, minhas decisões, minha maneira de ser e cuidar. Assim que eu sou (mãe). Que observem, apenas. Desejo ser respeitada nisso, muito respeitada, e quando respeitam minha maternagem, estão respeitando meu filho.
Olhar e não interferir, só me observar sendo mãe, e se eu precisar que façam alguma coisa, que me ajudem se puderem. Pessoas da minha família nunca me observaram fazendo algumas dessas coisas, por puro atropelo. É disso eu sinto falta. Parece querer demais, mas sei que minha família está pronta pra isso, talvez estejam apenas meio perdidos.
Então que parem, e olhem. Me vejam sendo mãe. E se querem pegar meu filho nos braços, que olhem nos meus olhos primeiro. Essa é a ordem natural das coisas.



sábado, 6 de abril de 2013

É


Eu não sou ateia  Não gosto de religiões, principalmente as cristãs. A religião católica tem um histórico de barbáries horripilantes e cumpre lindamente o papel de superego externo para aqueles que já tem superego, querendo regulamentar comportamentos e impor moral, o que a meu ver é se afastar anos-luz da espiritualidade. 
A maioria dos dogmas serve para traduzir o inefável para quem precisa de tradução, para quem só conhece o mundo de dentro da sua língua e sua cultura. É um papel perigoso e muitas vezes infrutífero. Ficarei feliz no dia em que a humanidade acordar e a religião perder todo o sentido. 
Quem sou eu pra falar com tanta propriedade sobre um assunto organizador de existência? Não sou nada nem ninguém, não quero ser guru nem "mística" e um dia manifestarei apenas luz, e isso vai acontecer certamente, mas não através deste texto. 
Tudo isso è apenas mais uma forma de me colocar no mundo, de atuar, de existir. Eu existo criticando a religião em um blog e no mesmo texto, tentando explicar o que  é a divindade na minha experiência. 
No meu experienciar o mundo existe algo que outros vêem ou sentem um decímetro e chamam de Deus. Este Deus quase homem, brincante de destinos, fazedor de homens e mulheres, ouvinte de súplicas e cheirador de incenso, este não existe.  
O que em mim existe é o todo pulsante e onipresente. É aquilo que mantém os átomos e os planetas em movimento, no seu lugar e em um não lugar que é pura potencialidade. Não é uma energia e nem um ser. É simples, é tudo o que existe. Não é bem nem mal, é luz e sombra, é o verbo ser no infinitivo, no infinito possível e impossível. 
Eu não existo, nem você, nem a matéria, nem a dor ou a fome. Tudo é ilusão. Tudo é manifestação criativa, tudo isso é feito e desfeito dentro do mesmo pote. Eu Sou tudo, e tudo me é. Não há separação real entre mim e todos os seres e coisas. Não sou outra coisa que não as fezes de um rato. Não sou outra coisa que não a força do terremoto. Não sou outra coisa que não a luz da lua pálida jogada no mar. Sou ação, sou estado. E mesmo assim, nada disso existe. 
O tudo se manifesta de infinitas formas por que é pura potencialidade. Há espírito, reencarnação, outras dimensões, planos e seres. Há leis, energias sutis, corpos energéticos e multidimensionais. E estas manifestações do todo não dependem da fé de ninguém. São. 
E nada disso importa, pois nada existe realmente. A tendência do todo que me habita é retornar para este todo de onde nunca saiu. É cessar as manifestações diversas e ficar no seu estado puro de ser. Para depois se manifestar novamente em outras formas, numa continuidade de movimento de vida. Assim, em mim e em todo ser e coisa há uma tendência comum para o amor. O amor nada mais é, o amor puro, do que todos os seres voltados para a "fonte", é a busca, a sensação, a certeza interna de que todos somos a mesma coisa. Todos, individualmente ou coletivamente, somos o todo. Buscar esta verdade é sentir amor. Manifestar esta verdade é ser o amor. Somos amor, pois somos um. E isso é "Deus". 

domingo, 24 de março de 2013

Comer Amar



Amanhã fazemos seis meses de aleitamento materno exclusivo. Catorze meses construindo um corpo humano. Durante este tempo, o meu filho se nutriu do meu corpo. O primeiro alimento não é só de nutrir o corpo, é de nutrir todos os aspectos do Ser. O seio não é apenas fonte de nutrientes, é a fonte da Vida. É de onde jorra leite, amor, abraço, afago, cheiro, pulsação, voz, olhar, segurança. Se alimentar não é apenas saciar o estômago, desde o início da formação das nossas conexões cerebrais, desde que começamos a entender o que é alimento. Comer é prazer, por que sempre foi, desde a nossa primeira engolida no leite. Comer é segurança, conforto, é receber amor. É um ato cultural, social, permeado de significados, memórias de sensações. 
Quando começamos a introduzir outros alimentos na dieta do bebê, o comer tem todo este potencial de prazer, de ser um ato que revive a sensação do Materno. Mas na manutenção de um ciclo de relação ruim com a comida, mediada pela valorização do artificial, pela falta da manutenção e desenvolvimento da saúde, pelo culto ao corpo padronizado e forjado artificialmente, nós não sabemos deixar que nossas crianças comecem a comer, e não sabemos lidar com a maneira infantil de comer. 
Talvez cada bebê tenha uma maneira e um tempo para começar a se alimentar de outras fontes que não sua mãe, e tenha também seu tempo de abandonar de vez o peito. Talvez nosso papel seja sugerir alimentos, quantidades, contextos e maneiras diferentes de comer e deixar que eles, através da busca natural por prazer, escolham sua forma de comer. E que mudem. Nosso papel seria, então, não atrapalhar a relação já formada entre comida e prazer. Imagino que assim, as relações entre comida, corpo, saúde e prazer seriam permeadas por liberdade, aceitação, responsabilidade. Estaríamos indo contra todo o "sistema", permitindo o desenvolvimento de pessoas livres.   

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Casal


Fotografia de stock: Couples feet dangle from dock above tranquil…


Feminino e Masculino são duas forças, duas qualidades distintas que habitam nossa alma. Não tem relação com o sexo. Simbolicamente existe em nós um homem e uma mulher que se relacionam, que se casam e tem um filho, que brigam e fazem as pazes. Simbolicamente. 

Eu passei por uma transformação que foi desencadeada e guiada pela gestação, o parto e o puerpério do Pedro. Meu corpo tomou a frente da minha existência. Tudo parou do lado de fora para que dentro pudesse haver uma movimentação na intensidade de terremotos e vulcões. Para que a Morte dançasse sobre meu ser nu, desfeito, sem máscaras. Enquanto meu filho se formava em mim, enquanto meu ventre pulsava com vida, a mais pura energia da vida e da criação, meu casal interno lutava, um contra o outro, num tango frenético de dor, de destruição, de desconstrução. 

A mulher em mim estava perdida na velocidade das coisas, não corria nem ficava. Não queria se entregar no rio da vida, tinha medo de ser levada sem saber pra onde. Não sabia nada sobre entrega. A mulher em mim esperava algo, e a agonia da espera e o prazer do sofrimento eram maiores que o desejo de liberdade. 

O homem em mim estava com raiva, quieto, se sentia dispensado pela mulher em mim. Ele queria falar mas só gritava, ele queria agir, mas só dançava, ele queria amar, mas só calava. E sua raiva e seu orgulho não permitiam que nada ficasse fora do lugar. 

Ninguém tinha espaço nem voz.  Muito do que era meu se desfez diante da força do meu corpo, muito ruiu, mais um tanto se desorganizou. Não há maior bênção do que a Morte. A partir deste mergulho interno pude me reinventar, agora mãe. Agora mulher. Passei por um portal que esta experiência me abriu, e só agora me sinto mulher. 

E foi a maternidade que me trouxe isso, não foi o sexo, não foi o casamento, não foi o trabalho nem a formatura. Não foi uma viagem, ou uma conversa, ou sair da casa dos meus pais. Foi quando meu corpo parou para gerar, parir e nutrir meu filho, foi assim que eu me tornei mulher. Foi assim que o casal em mim escutou um ao outro, se tornaram irmãos, depois amantes, depois pai e mãe, depois se tornaram a pessoa que sou. 

domingo, 10 de março de 2013

A novidade veio dar a praia


Ilustração royalty-free: mermaid


Estou em pé diante da porta. Eu sei o que tem lá dentro: primeiros dentinhos do Pê, novas tatuagens com significados intensos, volta aos estudos, começo de um novo trabalho, saída do trabalho anterior, retomada de uma rotina de exercícios, introdução de alimentos na vida do pequeno. 
Sei o que tem aqui fora: uma mulher de barro, feita e refeita no forno pela gravidez, pelo parto, pelo filho, pelo leite jorrando do peito, pelos muitos encontros internos. Aqui fora sou três: uma criança, uma mãe, e uma velha. Sou a bruxa que nunca fez um feitiço. 
O que eu desconheço e me deixa aqui com os olhos arregalados olhando pra porta é como vai ser o encontro da mulher de barro com a novidade viva, pulsante, orgânica, fluida.  Quero saber usufruir sem guerra, sem estraçalhar ninguém. Quero a sereia inteira, que ela cante pra mim, que me beije com paixão, me carregue com ternura. Não quero comer do seu rabo, quero que ela me ajude a plantar, colher e preparar. Quero que ela me ensine a amá-la e a deixá-la ir quando for a hora, quando eu estiver diante de outra grande porta como essa, com calma e com o coração aberto pro próximo ser mágico que me vier.   

sexta-feira, 8 de março de 2013

Eu que disse!

Agora estou também no Minha Mãe que Disse, dá uma olhada lá e aproveita pra passear pelo site que é maravilhoso, tem coisa pra todo tipo de mãe/pai/bebê/criança!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Puerpério

Imagem royalty-free: My best pool jump





O mar invade com violência.Um mar repleto de amor e com alguns monstrengos flutuando. Eu e meu bebê somos jogados longe pelo mar que bateu no peito e somos arrastados sabe-se lá pra onde. Tento me segurar em alguma coisa, mas não tem mais nada ali. Luto para não levada, e sempre com meu bebê nos braços. Um braço se agita pra nadar, e o outro se contrai dolorido de segurar o bebê. Eu olho para ele e ele me devora, me engole inteira e eu me perco no seu corpinho. Ele olha pra mim e eu o devoro com a intenção de devolvê-lo pra minha barriga. Os dias passam, estamos cansados debaixo de toda aquela água. Então me ocorre parar de nadar um pouquinho e só me entregar.Meus braços relaxam e eu seguro meu bebê de leve, deixando ele flutuar também. É gostoso flutuar, a água nos leva pra cima e os monstrengos ficam menores. Vamos relaxados e livres para nos afogar naquele mar de amor. Agora boiamos juntos e às vezes mergulhamos um pouco. Muitas vezes me dá um medo, porque não sei onde estamos, não sei o que fazer, se ficar ou nadar. Mas quando me entrego, tudo fica mais gostoso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Agora estou no facebook também!!!

https://www.facebook.com/EngravidarEParir

É só entrar lá e curtir a página.

Te espero!!!

Velha


Imagem royalty-free: portrait close up older woman


Estou envelhecendo. Chego aos trinta com o peito murcho de amamentar, a barriga protuberante, a bunda caída. Minha pele está mais áspera e marcada. Não tenho mais tanta energia pra virar a noite bebendo, dançando e fumando em um ambiente com música alta e muitos amigos. Não me cabe mais muita coisa. Nem roupa, nem situação, nem humor. Sinto nas costas o peso do meu filho, do meu trabalho, da responsabilidade com minha família e minha casa. Da responsabilidade com meus vizinhos, com minha cidade. Penso mais naquilo e menos nisso, faço mais disso e menos daquilo. E reconheço, reverencio, me entrego com languidez pra velhice que chega devagar. 
Não é tão cedo pra aceitar o destino que já vejo se fazendo no meu corpo. Loucura seria negar qualquer transformação e chorar trancada no quarto, nua, abraçada no espelho sincero. Seria estupidez alimentar uma indústria que vive do desespero daquelas que se agarram nos anos passados, no corpo que já não existe, na juventude que já se foi. Cremes, cirurgias, dietas, um batalhão lutando uma guerra já perdida contra o Tempo. 
Sinto que é melhor a entrega. É relaxante,  e todas as vozes que gritavam o tanto que é feio a velhice feminina se tornam um sussurro longe... Ser velha é bonito, eu consigo ver o quanto. Trilho o caminho visando o desfecho certo e libertador da Morte. Sei que para ser velha é preciso olhar pro agora, pras pedras que repousam no chão, pro vento que sacode as árvores, pros olhos de cada um ao meu lado. É o caminho que importa. Cada fio de cabelo branco que aparece, cada flacidez descoberta, cada ruga nova na testa me mostra que sou amante do Tempo. Mostra o tanto que ele passou por mim, as vezes galopante e as vezes preguiçoso, e me deixou tanto, levou de mim mais um bocado. Se torna um velho amigo, um mestre querido, ou temido ou odiado. Eu aprendi. E isso é belo. Meu corpo carrega a história, a minha e de todas as mulheres, carrega a origem e o alimento de toda a humanidade. E isso é belo, é sagrado. 
Uma das mulheres que eu mais amo nesta vida é minha avó, ela é velha desde que eu nasci. E como ela é linda, toda ela! Seu corpo murcho, os cabelos brancos que teimam em sair da cabeça e passear através do vento, caindo em todos os lugares. Sua pele pintada e cheia de veias azuis tortuosas como rios. Seu andar lento, as mãos trêmulas, o cheiro de um suor seco e leite de rosas. Todo aquele corpo que conta uma existência! Quantos suspiros naquele peito, quantos afagos daquelas mãos, quantas lágrimas daqueles olhos caídos por trás do óculos grosso. Da sua boca fina quantos sorrisos e gargalhadas e beijos e palavras! Quantos ainda continuarão saindo daquele ventre através da descendência! Eu presencio todo o milagre da vida naquela mulher tão linda e sagrada. 
Uma mulher velha desperta medo por que tem um poder tão gigantesco e misterioso que para ser adormecido foi preciso uma desvalorização longa e sistemática, a mesma que transformou a bruxa em um personagem de terror. Não há terror na Ansiã, há poder, beleza, vida! É aquela que sabe a linguagem da alma, o segredo do tempo, a dona da criação. É a tecelã, a cozinheira, curandeira, conselheira. É aquela próxima da morte, que gerou vida, e que por isso sabe se comunicar entre os mundos. Você, velha, é tudo isso. Está tudo aí.      

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carta ao parente que virou desafeto por que não concorda com o jeito que crio meu filho.


Eu pensei em não escrever esta carta por que eu já sabia antes até de engravidar que muitos discordariam das minhas decisões com relação a minha família e aos meus filhos simplesmente por que decidi não ir pelo caminho mais comum ou pelo mais fácil mas resolvi parar, estudar e ir pelo melhor caminho. Geralmente ele é raro e difícil, mas decisão tomada: não vou pegar atalhos. 
Me enganei quando pensei que não me importaria com o que qualquer pessoa achasse disso. Com você eu me importo por que você faz parte importante da vida do meu pequeno e da vida da minha família. Mas isso não faz com que eu mude minhas decisões e que abra mão da minha responsabilidade. Esta responsabilidade cabe apenas aos pais e qualquer tentativa de deslocá-la ou distribuí-la pode trazer consequências ruins para o meu filho. Ele perderia as referências de núcleo famíliar, a segurança do pertencimento, a coerência na organização da vida e na formação do ser. Seria fácil para mim criar meu filho com uma coletânea de palpites  alheios, por que qualquer erro cometido não seria minha culpa. Eu seguiria com a consciência de um passarinho coletando palpites e distribuindo culpas. Não foi este o caminho que escolhi. 
Talvez seu desafeto se enfraqueça ou mesmo se desmanche (quem sabe) se você souber que tudo o que eu faço com o meu filho tem relação apenas com o bem estar e desenvolvimento dele, e não tem nada a ver com minhas relações com outras pessoas. Tudo o que fazemos tem base em alguma pesquisa científica, valores humanos ou intuição materna ou paterna. Sempre, invariavelmente, buscando o melhor que podemos fazer por ele apesar das nossas limitações. 
A partir do muro da minha casa, é tudo minha responsabilidade e eu peço que procure compreender com amor a minha decisão de não repassá-la a você ou quem quer que seja. E eu sinto muito, com todo o meu coração, que a chegada de uma criança tenha gerado desarmonia. Sei que meu filho jamais desejaria isso, pelo contrário. Seu papel, simplesmente por existir é de união, pois no seu corpo tão pequeno carrega a fusão de duas linhagens familiares inteiras através do amor. Espero que possamos honrar a presença deste amado ser e construir uma ponte de compreensão e sabedoria entre nossos corações. Que possamos sempre aprender uns com os outros. Escrevo sem nenhuma prepotência ou orgulho, apenas com amor.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Saudade da Lua Vermelha



Antes de engravidar eu havia parado de tomar pílula pelo mal que estava me causando. Meu corpo já não sabia quem era, estava confuso entre envelhecer ou ficar jovem, entre gerar ou sangrar. Ele não sabia mais o momento de se preparar para algo. Para o que? Ele havia esquecido. 
Minhas emoções acompanhavam este corpo perdido, a unidade se partiu e eu era ora boa ora má, ora linda ora ogra, ora amada ora abandonada, ora masculino autoritário e agressivo ora feminino fraca e carente. Um caos com uma bela máscara suntuosa e carnavalesca de mulher resolvida e guerreira com uma vida na qual quase não cabe um filho. E me corroía as entranhas, por trás da imponente máscara, uma vontade louca de engravidar. 
Neste atropelo também não cabia menstruar. Se quando menina já tinha aprendido que era ruim, se quando menarquei fui tomada por uma força maior que meu corpo de menina e que minha alma de criança, se quando eu menstruava eu sempre sucumbia em dor e desafeto. Agora que desejava secretamente um filho, a cada mês que o sangue escorria escuro entre as minhas coxas eu recebia um atestado carimbado e assinado pela natureza de incompetência feminina, sentia raiva do corpo burro que recebia as células procriadoras e amorosas do meu querido e não sabia o que fazer com elas. No alto da minha prepotência e com a máscara grudada na cara, eu é que não sabia. 
Desculpa, corpo, você que é o ser mais sábio que me guia. Não sabia que você estava se recuperando de dez anos seguidos de intoxicação hormonal, que você precisava de mim pra curar 28 anos de intoxicação mental sobre a sua mais sagrada forma de expressão, a menstruação. Me perdoe amado corpo. Te admiro agora, profundamente e com muito respeito, por tudo o que você fez tão perfeitamente,  e vem fazendo, depois que decidi parar de brigar com você. Algumas lições são tão grandiosas que minha alma ainda não entendeu. 
Nos meses em que não engravidava, desciam mais lágrimas que sangue e eu sentia tristeza como em um luto. Resolvi viver o luto, e me deparei com a cara da morte. Olhando bem pra ela, não sem medo, eu entendi com o coração de mulher, que a menstruação é a preciosa morte a nos visitar todo mês. E que alegria e gratidão quando notei que tinha a oportunidade mensal de me desfazer de todo peso morto no meu corpo e nas minhas emoções! Claro que dói, claro que mexe, que dá "tpm"! É a morte! Ela, a ceifadora sinistra que vem arar o campo, arrancar as ervas, remexer a terra. Sem isso nada mais poderia ser plantado, nada de novo brotaria nem no ventre nem na vida. Abençoada seja menstruação, venha que te espero ansiosamente pra poder olhar no espelho nua, sem máscara, sem vício. Venha arar meu útero e minha vida para que eu possa me semear, me plantar e me renascer a cada ciclo! 
A beleza desta morte foi socialmente silenciada e negada, dentro das nossas casas passamos de mãe pra filha, entre amigas e entre irmãs apenas o horror da morte. Mas ela é mais, é grandiosa, misericordiosa e amorosa destruidora. Quando a encarei com amor e respeito, quando desejei minha menstruação, ela parou de doer tanto, parou de inchar tanto e já não pegava meu orgulho pelo pé. Então engravidei. E agora, que meu corpo tanto fez, por mim e pelo seu fruto de criação, o Pedro, a produção do néctar da vida (o leitinho de Pepê) ocupa um lugar em mim que eu ainda não enxergo. Talvez por que meu namoro com a Lua Vermelha tenha sido tão intenso mas tão curto que meu coração feminino está tomado de saudades!     


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Eu sirvo pra ser mãe



Até agora ser mãe pra mim tem sido servir, e eu percebi isso há apenas alguns dias. Eu me incomodava com a ideia e a sensação de ter meu corpo tomado por outro ser desde as minhas entranhas, meus órgãos mais íntimos, meus seios, minha fisiologia, minhas ações, meu tempo. Ser assim arrebatada por uma invasão sem limite que mostra que nada me pertence, que eu não sou meu corpo nem meu tempo, muito menos minha mente e meus pensamentos. Tudo está tomado por outro ser. Isso ainda me incomoda, mas só porque mostra uma verdade inquietante. O que sou eu afinal, nem ouso pensar em responder. Vai que me tomam? 

Mas esta sensação de nada meu não é nada comparada à vida do meu bebê. Este sim tem um corpo que não o pertence, não está afinado com suas vontades e é manipulado por quem desejar assim fazê-lo. Os pensamentos e emoções dele são tão invadidos pelos de fora que ele mesmo se confunde em saber o que nasce nas suas sensações e o que é estrangeiro. Suas funções fisiológicas e emocionais são totalmente dependentes do outro, um outro tão invasivo e grande que ele confunde com ele mesmo. O que é ele, e o que não é, agora é impossível definir pois ele vive na invasão constante, ou fusão, no psicologuês. 

O meu trabalho agora, e o trabalho mais importante que eu tenho feito desde que recebi uma célula no meu ventre fértil, é serví-lo. Servir como uma escrava ao seu senhor, como um serviçal ao seu rei. Estar disponível, disposta, fazer o que for necessário, o que me pedir, o que precisar. Não há nada mais difícil que servir com amor, por que o meu desejo é que meu senhor se sinta bem, atendido nas suas necessidades, que ele não se preocupe com nada daquilo que me pediu, que ordem dada seja ordem cumprida, mesmo que seja difícil, mesmo que me deixe marcas, mesmo que meu senhor não saiba o que me custou trazer aquela bandeja. Quero que ele se sirva a vontade, que repita se desejar, que coma com todo o prazer que seu corpo puder produzir, e quero que me mande buscar mais. Se é para a sua felicidade, meu amo querido, eu vou. 

Parece ruim? Tem muitos momentos em que eu não quero, mas não tem como desistir. É apenas uma lição nesta vida relâmpago, uma das mais valiosas. Servir é uma arte que nos faz perder o apego a nós mesmos, nos faz olhar pra frente, pra cima, pra dentro. Para servir bem é preciso amar, desejar, conhecer, ter ação e coragem. Eu sempre gostei de servir, não é por acaso que cozinhar é uma paixão e que eu escolhi ser doula e psicóloga. Mas eu jamais, em nenhuma dessas atividades, seria tão convidada e ensinada a servir por puro amor como faz comigo a maternidade. Obrigada por mais esta grande lição, meu pequeno senhor. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Corajosa, você!




Quando eu digo que pari em casa, muitas vezes recebo de volta um 'corajosa'. 


Não sei se a coragem que me atribuem é por ter enfrentado a dor do parto de cara limpa ou se é por ter arriscado a minha vida e a do meu filho por causa de um modismo (como diria Alexandre Garcia). 



Sou corajosa mesmo, mas não por ter arriscado a vida de ninguém, pois sou corajosa mas não sou burra. Quem ainda acha que parto domiciliar é um modismo idiota deveria se informar antes de falar sobre algo que não conhece. Posso indicar livros, textos, sites e autores se quiser. 

E a dor do parto... bem, parir dói. Em casa ou em qualquer lugar, cesárea ou normal, não tem como fugir. Dá pra amenizar, adiar, mas parir sem dor são pra poucos partos naturais. Parir sem anestesia dói mais mesmo, foi preciso coragem. 

E coragem, bem, pra ter um filho é preciso coragem, e estou treinando minha coragem desde que vi as duas listinhas no teste de gravidez. É preciso coragem pra vomitar tudo o que come por 4 meses e manter a sanidade mental, pra olhar no espelho e presenciar o trabalho do seu corpo construindo um ser humano nas suas entranhas, pra pensar em uma forma de reorganizar sua vida e seus relacionamentos, pra olhar pra dentro e ver sombra e luz. 

É preciso coragem pra perder aquela barriga enorme do dia pra noite, de ver ela murcha e flácida. Coragem pra dar o peito rachado na boca de uma criança que suga com uma força que não condiz com sua pequenez. É preciso coragem para pegar um bebê pequenininho no colo e sentir tanto amor, tanta paixão por um serzinho que não te dá nada além da luz da sua própria existência. Sou muito corajosa, pois a coragem é um ato de cada vez, e no fim de um dia, meu ser é todo coragem, pronta para mais, pronta pro amor e pra entrega. Pra se entregar deste  jeito, é preciso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Da mãe pra Terra





Tenho a intuição que um dos papéis da mãe é conectar energeticamente a criança ao planeta Terra. Este espírito que chega e precisa se ajustar a um corpo denso, ao ar, ao peso, às energias tão diversas que povoam este planeta, não conseguiria fazer isso de uma forma abrupta. Precisa de um intermediário que possa guiá-lo neste começo, emprestar seu corpo e suas energias pra que este processo aconteça devagar e efetivamente. Somos a pele onde eles dormem, o cheiro que respiram, o leite que os alimenta. E então quando se sentem seguros começam a respirar mais fundo, a tomar seu corpo pra si, a sustentar o próprio peso e firmar o pé na terra. Quando sentem que o planeta é tão generoso e amoroso quanto sua mãe, podem aos poucos se entregarem à existência. É uma honra e enorme responsabilidade fazer esta conexão. Por isso o feminino é tão ligado às forças naturais, por isso os ciclos lunares, para que este papel seja bem realizado. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Carta ao bebê que não dorme



Sabe, meu anjinho, desde que você chegou eu vejo o quanto você aprende todos os dias.

Vejo você crescer fisicamente e como um ser único e incrível. 
E talvez sua dificuldade em dormir seja uma questão de aprendizado. Você se lembra que quando chegou aqui, não sabia mamar? Então ficamos juntos, conversamos, tentamos juntos, e você aprendeu. Para seu sono, também estou aqui, e iremos juntos novamente.Para te ensinar isso, meu filho, tive que prestar atenção no que é o sono. E aprendi também, obrigada por isso.

Quando o Sol se cansa e deita atrás do morro, a Lua começa a aumentar sua luz branca para nos trazer na escuridão um cheiro suave de tranquilidade, harmonia e paz. O manto de estrelas brilha longe e complacente com o descanso dos nossos corpos. Antes que a noite se instale, é sua hora de dormir. Os passarinhos se ajeitam cedo, as flores começam a se fechar, as borboletas se escondem... está na hora meu amor.

O sono chega no corpo devagar, vai invadindo as sensações. Os olhos pesam, o corpo começa a relaxar, a respiração precisa ficar pesada. Você pode confiar no seu corpinho, meu pequeno. Ele é um Ser e um Templo que precisamos respeitar e amar. É muito sábio e sempre nos avisa das suas necessidades. Ele te conduz nessa dança lenta da entrega. Por que o sono, filho, aprender a dormir, é aprender a se entregar. É ter a tranquilidade de entregar o controle do seu corpo e dos pensamentos. Pode ser difícil, para nós que já vivemos anos neste planeta, pode ser ainda mais. 

Só que você é um lindo bebezinho, meu filhote, e tem pra você uma mamãe enorme que te aconchega, te nina, te acaricia, canta sussurrando no seu ouvido, te embala com amor, sempre que você quer dormir. Aproveita isso, filho, pois mais tarde você vai querer este ninho de dormir, vai até mesmo precisar, e pode ser que neste dia não exista uma mão carinhosa pra afagar sua cabeça. 

Aproveita sua vida de bebê, para que quando você crescer tenha se saciado de tudo o que lhe foi oferecido, e que esteja pronto para buscar outras coisas, coisas de gente já crescida. 

Olha, meu amor, eu entendo sua relutância, por que se entregar não é mesmo muito fácil. Mas eu confio que você vai aprender, como já aprendeu tantas coisas na sua vida breve. Relaxe completamente, sinta a noite que se aproxima e se entregue no colo quente da sua mãe. Sempre que eu puder, por toda a minha vida com você, eu oferecerei meu colo para que você aconchegue seus cabelos cacheados, mesmo quando já estiverem brancos. Mas eu não serei seu mundo por muito tempo, não serei tão grande e confortável eternamente. Se entregue neste colo que te ama, de mãos dadas com seu sábio corpo, e adormeça meu filho.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A boa mãe




Dizem que sou boa mãe. 
Para uma mulher com quase quatro meses de maternidade que tem este desejo é um elogio imenso. Mas grudado no elogio vem o brinde: " se fosse outra não teria feito metade, ou teria feito algo ruim." Neste momento meus olhos param de brilhar de orgulho, me soa muito estranho isso. Talvez por que a medida de boa mãe não quero que seja pautada pela maternidade alheia. 
Não é por que existem muitas mães negligentes que eu posso ficar feliz em ser medíocre, já que medíocre é melhor que negligente. Também não posso pautar a qualidade da minha maternagem pelo ideal de Mãe que habita minha alma, pela Deusa Mãe que tudo dá. Seria viver em frustração, silenciar outras partes do meu Ser, seria ser incompleta e por isso jamais poderia tudo dar. 
Pensei que poderia medir pelo tanto que sou adequada as necessidades do meu filho, por ser PARA ELE uma excelente mãe, que é o que me importa. Mas me lembro que um ser humano jamais completa outro, seja em qualquer tipo de relação. Me lembro que se por acaso acontece do filho tentar por tudo completar a mãe, então a mãe tem um filho esquizofrênico que não é um ser autônomo, mas que vive no lugar de um falo que a mãe jamais poderia ter. Um pouco de frustração é o que nos faz seres que se movimentam pela vida, como bem falam minha psicóloga e o mestre Winnicott. Então mesmo que eu tentasse com todo o meu ser completar meu filho e ser a mãe perfeita, eu não conseguiria por que não posso alcançar - ver ou resolver - todas as suas necessidades. 
E o que me resta como parâmetro, como posso ter a tranquilidade interna, o afago egóico de que estou mesmo sendo uma boa mãe? Melhor fazer o melhor, e ainda assim deixar de lado, e como sabiamente disse Cláudia Rodrigues, a boa mãe do Buena Leche na sua reflexão bem melhor que a minha: " Não te orgulhes de feitos e bem feitos, fazes melhor de olhar os malfeitos e, quem sabe um dia, reparar com teus netos. Aceita, recebe e admira, eles vieram depois, estão além de ti. ".